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DPOC

A DPOC. 

Esta sigla estranha, com quatro letras e que algumas pessoas têm dificuldade em pronunciar, corresponde às letras iniciais das palavras Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica

Esta doença faz parte do grupo das patologias respiratórias e é mesmo uma das mais importantes e frequentes em Portugal e no Mundo. Como o próprio nome indica, é uma doença crónica, que pode e deve ser evitável, mas que infelizmente ainda não tem nenhuma forma de cura disponível. 

É caracterizada por uma obstrução progressiva e persistente na passagem do ar pelas vias respiratórias (nomeadamente os brônquios e as suas várias divisões mais pequenas) e está associada a um estado inflamatório não só nessas zonas, mas também em todo o corpo.

Na maioria dos casos, é provocada por uma resposta anormal do organismo a algumas partículas inaladas ou a gases nocivos, a maior parte provenientes do tabaco, mas também de lareiras e de fogões a lenha/carvão, entre outros.

A DPOC vai afetar a respiração, que é um fenómeno que acontece mesmo que não esteja a pensar nele, pois é uma função corporal autónoma e regulada pelo cérebro. Quando respira existe uma divisão percetível em duas fases: a inspiração (a entrada de ar para os pulmões, pelo nariz ou boca) e a expiração (a saída desse ar). No interregno dessas duas fases, e durante alguns microssegundos, ocorrem as trocas gasosas entre o ar e o sangue nos alvéolos pulmonares.

O grande problema na DPOC é que, principalmente em doentes com graus mais avançados da doença, os brônquios e as suas divisões mais pequenas são submetidos a episódios inflamatórios quase contínuos e que vão levar a uma limitação da saída de ar dos pulmões. Ou seja, o ar fica retido nos pulmões, pois não é completamente expulso durante a expiração. Esta inflamação maciça pode provocar também destruição dos alvéolos, alterando a dinâmica respiratória habitual e normal e levar a uma diminuição clara na capacidade respiratória da pessoa.

Existe de facto uma associação com o tabagismo – 90% dos doentes com DPOC foram ou são fumadores, mas não se limita apenas a estes. Podemos dizer que a prevalência desta doença é maior em pessoas fumadores, com mais de 40 anos de idade, caucasianos (raça branca) e do género masculino (apesar de ser alvo de debate!). Estima-se que esteja presente em 10% da população (ainda que muitos deles não estejam diagnosticados), e em 50% dos fumadores.

A DPOC é uma das principais causas de diminuição da qualidade de vida e de aumento da mortalidade a nível mundial, prevendo-se que essa influência irá crescer na próxima década (será a terceira causa de morte). Os grandes responsáveis por esta importância crescente no ranking da mortalidade são a epidemia do tabaco (só agora começam a sentir-se os efeitos do início tardio do tabagismo nas mulheres), o envelhecimento da população e o melhor controlo dos fatores de risco cardiovasculares (que resultou em menos mortes por esse tipo de doenças).

É também uma importante fonte de despesa para todo o serviço nacional de saúde, nomeadamente com os custos associados à ida destes doentes aos serviços de urgência e internamentos hospitalares, mas também para as pessoas que têm a doença, dado que necessitam de comprar medicamentos que são relativamente caros e precisam de se deslocar para as consultas, ou mesmo realizar alguns exames para estudar melhor a situação.

Estima-se que em Portugal existam cerca de 800 mil portugueses com esta doença.

Tabaco

É demais conhecido que o uso do tabaco está fortemente associado ao aparecimento da DPOC, a mais sintomas, a maior gravidade, bem como a um pior prognóstico. 

Hoje sabemos também que a carga tabágica (ou seja, a quantidade que uma dada pessoa fuma) está relacionada com a pior evolução da doença, nomeadamente com um maior grau de declínio da função pulmonar.

O maior problema do consumo de tabaco para os pulmões é que o fumo que é inalado provoca uma reação inflamatória muito forte nas vias aéreas. O estado inflamatório da DPOC a longo prazo pode levar a uma maior dificuldade na expulsão do ar previamente inspirado, bem como promove a destruição dos alvéolos (o Enfisema Pulmonar), que são as estruturas responsáveis pelas trocas gasosas e que permitem que a oxigenação seja eficaz.

Os dados mais recentes apontam que 20-50% dos fumadores têm ou poderão vir a ter DPOC, no entanto, quase 90% dos casos dos doentes com a doença têm ou já tiveram algum contato com o tabaco. Este risco aumenta com o número de anos e de cigarros que se fumam por dia.

Os dados em Portugal são assustadores. Em 2015 um terço da população fumava ou tinha fumado recentemente e o tabagismo foi o responsável direto por 11% das mortes no país. Existe ainda um maior predomínio dos homens: 31% versus 22% nas mulheres. 

Infelizmente, as estatísticas revelaram que os fumadores com DPOC apresentam maior consumo de tabaco e maior dependência do mesmo, comparando com os fumadores que não têm DPOC.

O charuto ou o cigarro eletrónico não trazem vantagens. O perigo é o mesmo, só que com uma máscara diferente, aliás, é público que a Sociedade Portuguesa de Pneumologia recentemente emitiu um parecer negando qualquer vantagem dos cigarros eletrónicos.

Risco ambiental

A qualidade do ar,dentro e fora de casa, pode ter um papel relevante no risco de desenvolver DPOC. Seja em casa ou no trabalho, existem partículas, gases ou fumos que podem irritar os pulmões e dificultar a sua respiração. 

Anos e anos com estas agressões continuas desencadeiam processos inflamatórios crónicos nas vias aéreas, que vão estimular a cicatrização excessiva, conduzindo a estreitamento dos brônquios e à destruição dos alvéolos.

Em casa

Verifique se a sua casa é amiga dos seus pulmões: procure e elimine o mofo – está na altura de fazer uma inspeção e uma limpeza geral! Se for muito cansativo ou um processo muito longo, pode dividir essa tarefa por vários dias, uma divisão de cada vez. Certifique-se que elimina completamente o pó e outras poeiras.

É essencial que todas as divisões tenham uma boa ventilação, permitindo a circulação rápida do ar e evitando a acumulação das poeiras e fumos. Isto é particularmente importante quando estiver a cozinhar ou para ajudar a eliminar as poeiras que entrarem para dentro das divisões da sua casa. Isto não ajuda apena a melhorar o controlo da DPOC, mas também a permitir a manutenção da sua saúde no seu todo.

Deve também evitar cozinhar as suas refeições com recurso a um fogo de lenha ou usar qualquer aquecimento com combustível, uma vez que os fumos que emanam são um tiro certeiro para provocar uma exacerbação. Deve existir sempre uma boa ventilação nessas divisões, sejam janelas ou exaustores, para ajudar a dispersar todo o fumo.

Fora de casa

E no exterior, seja na rua ou no trabalho, também deve de ter algum cuidado: A poluição urbana, industrial e os fumos dos tubos de escape dos carros são fatores de risco conhecidos para se desenvolver a DPOC, principalmente se a exposição for crónica. 

Se prevê que vai estar em contato com ar muito poluído ou perto de uma zona muito industrial pode utilizar uma máscara protetora. Isto é obrigatório se trabalhar em empresas do ramo da construção civil, pedreiras, fundições, entre outros.

Chamamos de exposição ocupacional respiratória aos riscos inalatórios durante ou devido à profissão que a pessoa ocupa, e podem ser decorrentes do trabalho diretamente efetuado pela pessoa ou então ao local onde a labuta diária é realizada, como por exemplo em empregos que necessitem que o trabalhador esteja localizado numa gruta ou uma pedreira.

Na DPOC cerca de 30% dos casos não relacionados com o tabaco são atribuídos a este risco ocupacional, o que significa que não é assim tão raro. E muitos doentes que fumam também têm profissões de risco, agravando ainda mais o risco do desenvolvimento e a rapidez da evolução da doença. 

As pessoas que trabalham nas aéreas da construção civilpedreiras ou empresas do setor das madeiras são as que estão em maior risco.

Défice de alfa1-antitripsina

A deficiência de alfa-1 antitripsina é uma doença com expressão genética que diminui a proteção pulmonar e que origina o enfisema pulmonar. Estas pessoas não têm uma proteína (total ou parcialmente= chamada alfa-1 antitripsina (AAT) no sangue. Esta proteína é produzida no fígado e protege os pulmões para que possam funcionar normalmente.

Trata-se portanto de uma doença hereditária. Cada pessoa herda dois genes AAT – um de cada progenitor. Herdar dois genes anormais de AAT origina níveis muito baixos de AAT no sangue. Uma pessoa que herda apenas um gene anormal é um “portador” de AAT. Embora os níveis de AAT de um portador possam ser inferiores ao normal, o risco de grandes problemas de saúde é muito menor do que em uma pessoa com dois genes anormais.

Nem todos os indivíduos que herdam dois genes AAT anormais apresentam enfisema e/ou doença hepática. Algumas pessoas nunca apresentam sintomas ou são muito ligeiros. Outras pessoas podem ter problemas pulmonares graves, problemas hepáticos ou ambos. Fumar é conhecido por agravar ainda mais a doença pulmonar, comparativamente a pessoas com défice genético que não fumem.

Os sintomas pulmonares de deficiência de AAT geralmente aparecem após os 30 anos, mas podem surgir mais cedo ou muito mais tarde. O primeiro sintoma é geralmente falta de ar durante as atividades diárias. Outros sintomas incluem a pieira e diminuição da capacidade de realizar exercício. Algumas pessoas terão excesso de muco quando tossem, devido a que este defeito genético pode provocar Bronquiectasias.

A deficiência de AAT só pode ser detectada através de exames ao sangue, nomeadamente através do doseamento do nível de AAT do corpo. Se o nível de AAT estiver abaixo do normal, o médico pode solicitar um exame de sangue de genótipo ou fenótipo. Esses testes de análise genética analisam
a quantidade e o tipo de AAT que está sendo produzido e compará-lo com os padrões normais. Um teste na vida é suficiente para o diagnóstico.

Até ao momento, não há cura para a deficiência de AAT, mas existem tratamentos que podem melhorar os sintomas, juntamente com a cessação tabágica e a eventual referenciação para a Reabilitação Respiratória. Pessoas que têm enfisema grave por deficiência de AAT podem ser candidatas a um transplante de pulmão.

Em casos muito seleccionados, e de acordo com critérios muito explicitos, doentes com o tipo mais grave de deficiência desta enzima podem ser considerados para uma terapêutica de aumento de AAT, que pode retardar ou interromper a destruição do tecido pulmonar. É administrado por via intravenosa (através de uma veia) e geralmente é administrado uma vez por semana por toda a vida.

Na Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica os doentes podem apresentar vários sintomas. 

As pessoas convivem com a doença de diferentes maneiras, nenhum doente é completamente igual ao outro. Apesar de haver alguma ligeira variabilidade ao longo do dia, por regra sentirá alguns dos sintomas todos os dias mesmo que esteja a cumprir fielmente com tratamento de controlo elaborado pelo seu médico.

Os principais sintomas apresentados pelos doentes com DPOC são:

Sensação de falta de ar (dispneia): O nome diz tudo e dispensa grandes explicações. Este é um dos sintomas mais importantes e que vai agravando à medida que o tempo passa. É a principal responsável pela incapacidade e pela limitação na vida diária determinada pela DPOC e está associada a uma diminuição da função pulmonar. Por vezes é tão grave e intensa que impede as pessoas de fazerem as tarefas mais simples e pode até revelar-se quando estiver a falar ou mesmo parado.

Tosse: pode acontecer durante todo o dia, mas ocorre principalmente durante a manhã ao acordar. Por vezes, é o primeiro sintoma, mas é muito pouco valorizado pela maioria das pessoas. Ocorre em 50% dos doentes que são fumadores. Estima-se que um doente com DPOC tosse em média 21 vezes por hora. A tosse pode ser tão limitativa quanto a falta de ar, principalmente no trabalho ou na vida social.

Expetoração: devido ao estado inflamatório típico da DPOC existe uma produção crónica de secreções respiratórias, que podem apresentar diferentes características ao longo do tempo. Geralmente têm a coloração acinzentada ou branca, mas pode ser esverdeada ou amarela durante as agudizações, provavelmente em relação com a presença de uma infeção respiratória.

Respiração ruidosa (pieira): trata-se de um som agudo que surge quando a passagem de ar nos brônquios é turbulenta, provocada por vários fatores: a contração muscular brônquica que obstruir e complica a passagem do ar, a presença secreções ou outras causas.

Na maior parte dos casos, estas queixas agravam de forma continua, lenta e progressivamente, pelo que o doente vai-se adaptando sem dar o devido valor,  apenas recorrendo ao médico quando a sua intensidade é demasiado forte para aguentar e a doença já tem alguma gravidade. O diagnóstico e o tratamento precoce podem evitar um agravamento brusco da função pulmonar e o atingimento de um estado de saúde que o impeça de ter uma vida relativamente normal.

Os sintomas da DPOC são muitas vezes piores no inverno, especialmente em anos muito frios, e é possível que possa ter duas ou mais crises por ano. No entanto, se cumprir a medicação recomendada este número deverá ser bem menor. No entanto, como iremos ver, também o calor pode afetar e estragar o controlo da doença.

Uma exacerbação acontece quando os seus sintomas são particularmente mais graves em relação ao habitual. A exacerbação de DPOC é a principal causa de internamento por patologia respiratória na Europa e em Portugal é a segunda causa, após o internamento por Pneumonia.

A DPOC pode ter ainda outras manifestações:

Dor torácica inespecífica: devem ser descartadas outras causas comuns para dor na região torácica, nomeadamente as relacionadas com o coração ou a presença de um pneumotórax. Normalmente ocorre durante a tosse e é sentida na zona das costas.

Perda de peso: isto acontece devido a anorexia, a menor ingestão calórica ou pelo metabolismo aumentado, típico da doença. O baixo peso é completamente indesejável na DPOC e tem valor prognóstico negativo.

Cansaço: devido ao menor aporte de oxigénio aos músculos e a uma menor capacidade muscular.

Expetoração com sangue: felizmente acontece muito raramente e caso suceda deve motivar alguma preocupação, sendo especialmente urgente se a perda de sangue for em quantidade assinalável. Pequenos “raios” de sangue no meio de expetoração esbranquiçada podem aparecer por tosse irritativa e não estão associados a consequências graves.

Depressão: uma dimensão importante da doença muitas vezes desvalorizada e que surge devido à incapacidade da pessoa com DPOC em aceitar as limitações provocadas pela falta de ar bem como decorrente do estigma social da doença.

Atualmente são necessários vários dados para se dizer que uma pessoa tem oficialmente DPOC. Trata-se de um diagnóstico médico.

É necessário ter algumas dos sintomas típicos, pelo menos um fator de risco e realizar um exame – a espirometria com teste de resposta ao broncodilatador.

Apesar de existir atualmente um subdiagnóstico evidente da doença, ou por outras palavras, uma taxa de diagnóstico de DPOC abaixo do desejável, a verdade é que muita gente também está catalogada com DPOC sem nunca ter realizado uma espirometria, o que não está certo. 

realização de uma espirometria é fundamental. A palavra espirometria vem do latim spirare = respirar + metrum = medida.

Espirometria permite o registro dos vários fluxos ou débitos de ar e fornece dados que quando bem interpretados revelam como está a funcionar o seu pulmão. Como é bastante fácil de ser executada e tem um elevado valor informativo é o exame mais importante na avaliação de um doente com DPOC.

Resumidamente, este exame determina a velocidade e a quantidade de ar que um indivíduo é capaz de colocar para dentro – inspirar– e para fora – expirar– dos pulmões. É um exame não invasivo e é completamente indolor. A pessoa apenas tem que respirar pela boca, através de um tubo conectado a um aparelho (espirómetro) que é capaz de registrar o volume e a velocidade do ar respirado.

É através deste exame que se documento a presença de um padrão obstrutivo – a obstrução ao fluxo expiratório é uma das características mais importantes na DPOC e por isso esta é considerada uma doença obstrutiva.

Tratamento de controlo

A DPOC não tem cura, mas é possível controlar.

INALADORES

Os inaladores são dispositivos utilizados para tratar as doenças respiratórias crónicas, como a DPOC, sendo responsáveis por armazenar (na maior parte dos casos) e permitir que o fármaco ou medicamento seja libertado de modo a atuar o mais diretamente possível nas vias aéreas inferiores.

Correspondem a medicamentos, que terá de tomar todos os dias, e de acordo com a indicação dada pelo seu médico na consulta. Ao longo do tempo, e com a sua utilização diária, vai alcançar metas, melhorando aquilo que é capaz de fazer ou, dizendo por outras palavras, vai sentir uma melhoria na sua qualidade de vida.

No entanto, ao contrário de outros medicamentos a que pode estar habituado, como aqueles usados para tratar a tensão arterial alta, a diabetes, ou o colesterol elevado, os inaladores não são comprimidos e, por isso, não são ingeridos ou tomados com água.

Os medicamentos usados para tratar a DPOC precisam de ser conduzidos diretamente até ao seu pulmão. Para que isto aconteça, o medicamento tem que ser inalado, chegando assim ao pulmão, e produzindo localmente a dilatação e redução da inflamação dos brônquios. 

Desta forma, eles contribuem para a redução da falta de ar, da produção de expectoração e previnem as exacerbações (períodos com inicio mais ou menos súbito em que a sua falta de ar agrava e tem de recorrer a um serviço de urgência ou a uma consulta urgente).

Curiosidade

Para conseguirmos com que o medicamento chegue ao pulmão são usados os inaladores, também conhecidos por muitos como “bombas” ou “bombinhas”. 

Sabe porque muitas pessoas o chamam assim? Isto porque antigamente as únicas substâncias utilizadas provocavam aumento do batimento cardíaco ou da agitação o que levava também a ansiedade, e muitas pessoas comparavam os efeitos de realizar o inalador aos de uma bomba.

Existem dois tipos ou grupos de fármacos que o seu médico lhe pode prescrever:

  • Os medicamentos de controlo– aqueles que vai ter de tomar todos os dias, de acordo com a indicação dada pelo seu médico na consulta e que o vão ajudar a sentir-se com mais energia, a respirar melhor no seu dia-a-dia e, a prevenir as exacerbações da DPOC. Por outras palavras, permitem controlar a DPOC.
  • Os medicamentos para SOS– medicamentos que só usará para situações de “alívio”, ou seja, quando estiver com muita falta de ar. Estes medicamentos são reservados para os dias em que se sente com mais dificuldade em respirar ou quando sente pieira.

OXIGÉNIO

Alguns dos doentes que recorrem a uma consulta de controlo pela sua DPOC continuam a apresentar queixas de falta de ar e cansaço, e na análise ao sangue verifica-se que o nível de oxigénio no sangue é bastante inferior ao normal, por vezes com níveis surpreendentemente baixos. 

Isto é preocupante porque desse modo não irá ocorrer a oxigenação dos músculos e das mais variadas células do corpo e, mais tarde ou mais cedo, a máquina vai deixar de funcionar.

Em algumas pessoas com DPOC este valor de oxigénio é tão baixo que entra dentro dos critérios para iniciar Oxigénio em casa.

O Oxigénio é um medicamento, e tal como todos os outros, tem efeitos positivos importantes, mas que pode trazer algumas complicações, os chamados efeitos adversos.

Não é de venda livre, sendo obrigatório que seja prescrito por um médico após alguma ponderação. 

Na consulta ou após o internamento, receberá umas folhas com a  prescrição com o tipo de aparelho escolhido, o débito e o número de horas que deve fazer este tratamento por dia e também uma lista com todas as opções de empresas que fornecem este serviço. Em alguns casos, o médico contata telefonicamente ou terá que ser o doente a telefonar, para agendar a entrega do aparelho e a explicação de como funciona. Estas empresas têm serviço e apoio 24 horas por dia.

Existem vários formatos de fornecimento de OLD (Oxigénio de Longa Duração) aos doentes: Gasoso, Líquido e o Concentrador. Em pessoas com vida ativa e em casos selecionados, é possível a prescrição de um concentrador portátil.

Através do Sistema Nacional de Saúde todo o tratamento é comparticipado por inteiro, ou seja, não tem custos diretos para o consumidor, neste caso o doente.

VENTILAÇÃO NÃO INVASIVA

Alguns doentes precisam da ajudar de um ventilador, normalmente no período noturno, para ajudar a respirar. Nomeadamente para colaborar na expulsão do dióxido de carbono, que se acumula em alguns doentes com DPOC.

Pode ser iniciado em casa ou no hospital e é muito importante em pessoas com um grau de doença mais grave.

Funciona através da instituição de pressão durante a inspiração (maior) e na expiração (menor) de modo a auxiliar os músculos respiratórios.

Esta é fornecida por um aparelho (o ventilador) que está “ligado a si” através de um tubo e de uma máscara (normalmente facial nestes casos).

Tal como ocorre com a prescrição de Oxigénio, não é de venda livre. Tem de ser prescrito por um Pneumologista e é colocado em casa/hospital por uma empresa prestadora de serviços. No decorrer do seguimento em consultas com o seu médico, poderá ser pedido que solicite a essa empresa a “leitura do cartão”. Trata-se da leitura de como o aparelho está a funcionar e se está a aderir ao tratamento, permitindo mudanças e ajustes caso sejam necessários.

Através do Sistema Nacional de Saúde todo o tratamento é comparticipado por inteiro, ou seja, não tem custos diretos para o consumidor, neste caso o doente.

REABILITAÇÃO RESPIRATÓRIA

Devido ao seu componente inflamatório bem como pelas limitações que provoca, a DPOC pode assim ter um impacto a vários níveis, que são específicos de cada pessoa em função do estadio, gravidade e resposta individual à doença, pelo que a Reabilitação Respiratória (RR) deve ser uma intervenção abrangente, multi-interdisciplinar mas também individualizada. 

Tem como principais componentes o treino de exercício e a educação do doente e família visando a mudança de comportamentos, com vista a melhorar a condição física e psicossocial dos doentes com doença respiratória crónica e promover a adesão a longo prazo de comportamentos promotores de saúde.

Outras intervenções como a fisioterapia respiratória, a psicoterapia, o aconselhamento nutricional, a terapia ocupacional e apoio social, podem também fazer parte do programa de RR.

Os benefícios da Reabilitação Respiratória, comprovados cientificamente, são a melhoria da qualidade de vida relacionada com a saúde, o aumento da tolerância ao esforço, a melhoria da capacidade para realizar as tarefas do dia-a-dia, a redução dos sintomas (dispneia, cansaço, tosse, expetoração), a redução das exacerbações e/ou da sua gravidade, redução do número de consultas não programadas, hospitalizações e dias de internamento, o aumento da esperança de vida e uma maior eficácia na gestão da doença pelo doente e familiares/cuidadores.

treino de exercício é uma fundamental no PRR e foca-se principalmente no treino aeróbio ou de resistência e no treino de força. Estas modalidades devem ser complementadas com treino de flexibilidade e quando necessário treino de equilíbrio (ex. risco de queda). 

fisioterapia respiratória envolve a avaliação e intervenção relacionada com a aplicação e ensino de técnicas de remoção de secreções ou higiene brônquica (instrumentais e não instrumentais), os exercícios de controlo respiratório (ex. expiração com os lábios semicerrados, a respiração costo-diafragmática, o posicionamento para reduzir a dispneia), os exercícios de expansão pulmonar, o treino dos músculos respiratórios, o treino de técnicas de conservação de energia e o relaxamento.

A Reabilitação Respiratória pode ser realizada em vários locais como o hospital (durante o internamento por agudização, em ambulatório), em centros especializados na área respiratória, nos centros de saúde, em locais na comunidade (clinicas, centros comunitários, ginásios) e no domicilio (acompanhado por fisioterapeuta presencialmente ou à distância – telerreabilitação). 

Independentemente de onde é realizada a RR (obrigatoriamente com a componente de treino de exercício bem orientada), da gravidade da doença e comorbilidades associadas e da idade do doente, a Reabilitação Respiratória tem benefícios significativos na melhoria da qualidade de vida e bem-estar físico e psicossocial do doente com DPOC.

CIRURGIA

Em situações muito especiais, a realização de uma cirurgia pode ajudar a tornar a doença mais suportável. Entre elas, a bulectomia (remoção de bolha) ou a cirurgia de redução do volume pulmonar.

Os doentes mais graves podem ser referenciados para transplante pulmonar.

No entanto, raramente são opções viáveis, pelo que não abordamos este assunto com grande detalhe.

CUIDADOS PALIATIVOS

Um doente com DPOC muito grave pode sentir bastante desconforto físico devido à sua doença, tal como a sensação de dor, dificuldade respiratória, náusea ou cansaço. Pode ainda sentir angústia, ansiedade, depressão, ou mesmo pensamentos destrutivos. Nestes doentes o mais importante para o médico não deverá ser estar preocupado com a função pulmonar, mas sim retirar-lhe a dor, aliviar a sua sensação de falta de ar e melhorar a incapacidade física e emocional

Sabe-se que a falta de ar na fase terminal da DPOC é muito comum e pode ser controlada através por vários métodos que vão da simples prescrição de uma ventoinha até ao uso de fármacos opióides, normalmente com uma excelente resposta. 

Estes cuidados podem ser proporcionados em primeira linha pelo seu médico assistente, mas em alguns casos são necessárias equipas de Cuidados Paliativos, a Medicina da Dor, ou mesmo o aconselhamento legal.

A exacerbação

Uma exacerbaçãonão é mais do que um agravamento súbito dos sintomas habituais e crónicos da DPOC, ou por outras palavras, corresponde a uma agudização caracterizada pelo aumento quer da frequência quer da gravidade das queixas que tem no dia a dia.

Trata-se, portanto, de uma alteração no grau da sensação de falta de ar habitual, em que muitas vezes também surge a pieira e o aparecimento ou agravamento da tosse seca ou produtiva (com expetoração), para além da sua variação diária habitual. 

Esta mudança é suficientemente grave para justificar uma mudança no plano de tratamento, quer com a introdução de medicação durante esta fase aguda, quer ajustando a medicação que faz habitualmente para controlar melhor a doença. Muitas vezes pode ter febre associada e nesse caso trata-se provavelmente de uma exacerbação secundária a uma infeção.

Fatores de risco para uma exacerbação

  • Infeção Respiratória
  • Poeiras e fumos
  • Cumprimento inadequado da medicação habitual
  • Não fazer parte de um programa de Reabilitação
  • Doenças crónicas (Hipertensão, Diabetes etc) mal controladas
  • Sem vacinação anti-gripal e anti-pneumococcus
  • Outras

De um modo simples, as exacerbações podem ser agrupadas em 3 grupos:

  • Exacerbações que podem ser tratadas em casa.
  • Exacerbações que requerem hospitalização.
  • Exacerbações com falência respiratória grave e a necessidade de medidas diferenciadas de suporte das funções vitais, ou seja, internamento em Unidade de Cuidados Intensivos.

Tratamento em casa

Uma grande parte dos doentes com exacerbações que recorrem aos Serviço de Urgência hospitalares ou dos Centros de Saúde têm alta para a sua casa e os dados revelam que o tratamento fora do ambiente hospitalar é a melhor opção para a maioria das pessoas.

Uma exacerbação vai levar a uma alteraçãono esquema do tratamento que faz habitualmente, que vai ser ajustado de modo a alcançar-se um controlo mais eficaz da doença. Em muitos casos pode ser adicionado um corticóide inalado que permite atuar como anti-inflamatório brônquico, diminuindo a inflamação e tratando este episódio agudo. Se for episódio único, passados umas semanas este corticóide pode ser retirado, no entanto, pessoas com várias exacerbações por ano podem ter que manter este fármaco durante muito mais tempo.

Alguns doentes têm também indicação para corticoterapia oral por um período não superior a 5 dias.

Se existir alguma alteração no aspeto da expetoração habitual ou a presença de critérios clínicos e analíticos de uma infeção, pode ser necessário prescrever-lhe um antibiótico para combater esse processo infecioso.

Em certos casos pode também ser necessário realizar tratamento com oxigénio em casa. Nem todos vão necessitar de usar oxigénio para toda a vida, pelo que a reavaliação a curto prazo para uma decisão sobre a sua continuação ou suspensão deverá ser agendada.

Tratamento no Hospital

A decisão de internar uma pessoa com uma agudização da sua DPOC na enfermaria de um hospital decorre da interpretação da sua situação por parte do médico que o assiste na consulta ou na urgência. Nomeadamente, através da avaliação da gravidade da falta de ar, do grau de insuficiência respiratória, se existiu uma resposta insuficiente ao tratamento efetuado bem como da presença ou não de uma infeção grave ou de algumas doenças associadas (como diabetes ou hipertensão arterial) que estejam descompensadas.

A maioria dos doentes consegue ultrapassar com sucesso uma agudização, incluindo as situações em que é necessário ficar internado no hospital alguns dias. Em alguns casos, durante esta exacerbação, estas pessoas desenvolvem insuficiência respiratória grave, uma vez que o sistema respiratório não consegue recuperar sozinho, nem mesmo com ajuda de oxigénio extra. Desse modo, o organismo não consegue captar oxigénio suficiente e/ou eliminar de forma eficiente o dióxido de carbono. São nestas situações em que o apoio de uma máquina (ventilador) pode ser essencial para o ajudar a respirar.

Ventilação Mecânica não-invasiva (em que não é necessário “estar a dormir”), trata-se de um modo de suporte de vida temporário, que é instituído até que a causa que provoca a insuficiência respiratória aguda seja revertida com o tratamento adequado. Esta técnica permite dar tempo ao seu organismo para responder a todas as intervenções terapêuticas escolhidas para tratar esta agudização.

Um dos pontos mais importantes no controlo da DPOC é a prevenção de exacerbações e do agravamento da DPOC. Sabemos que uma exacerbação é o principal fator de risco de uma nova exacerbação a curto prazo e de que a função pulmonar após uma agudização pode nunca recuperar completamente.

É importante que um doente com DPOC realize as vacinações sugeridas pelo médico, nomeadamente contra a gripe e contra as estirpes mais frequentes de pneumonia. Em alguns casos, a maioria destas vacinas é gratuita. Alguns doentes têm também indicação para outras vacinas.

Se trabalha em ambiente com poluição deve tentar mudar de local de trabalho ou então usar a proteção adequada. Se tem fogão de lenha e lareira e usa frequentemente, deve repensar.

A manutenção de uma boa nutrição e a realização de exercício regular ajudam a manter um melhor nível global de saúde e desse modo também protegem-no de agravamentos a nível da DPOC.

Caso fume, não existem dúvidas que deixar de fumar é fundamental. A cessação tabágica é umas das intervenções com maior sucesso na melhoria da qualidade de vida e no atraso da evolução da doença.

Atualmente existem consultas disponíveis em Hospitais e Centro de Saúde e o leque de tratamentos disponíveis tem vindo a aumentar nos últimos anos.

Revisão: Maio 2022